

Elas são quatro.
Nem todas se encontraram, mas todas as histórias se misturam de alguma forma, ainda que dentro do meu coração e das minhas lembranças.
Convivi com os gatos desde que me conheço por gente, na casa dos meus avós.
Sempre tive um encantamento especial pelo silêncio, pela perfeição.
E nada mais silencioso, perfeito e estético do que um gato (alguém já disse isso?).
Meus pais nunca quiseram animais no apartamento. Até renderem-se à nossa primeira hóspede, que veio muito pequena, branquinha e molhada, em uma manhã de chuva.
A história da entrada definitiva dos gatos na vida da gente é freqüentemente a mesma. Não os escolhemos. Eles chegam quietos para a felicidade de quem os espera e conquistam aqueles que, gostando ou não, preferiam não os ter em casa.
A Maria ficou sem nome por muito tempo, já que sua presença não seria definitiva. Mesmo quando decidido que ficaria, nenhum nome deu certo. Ficou sendo Maria oficialmente, mas nunca a chamamos assim.
Em setembro de 2003 perdi uma grande amiga. Ela se foi aos 14 anos. Era minha filha única.
Maria, Pipinha, Piupiuzinho, Pipiquinha - esses micos que a gente paga e só quem ama os seus gatos entende - era especial. Uma gatinha branca de olhos azuis, linda, temperamental demais, braba demais, ciumenta demais, inteligente demais, inesquecível, insubstituível.
Por diversas vezes tentei adotar outro gato nesses anos todos, mas ela não deixava.
Extremamente agressiva também com as pessoas, atacava de verdade, tirava sangue. Mataria um filhote. Pude ver pelas vezes em que trouxe um para casa. Desisti.
Amava demais esse monstrinho branco e cor-de-rosa com cara de anjo. Não queria contrariá-la.
Como muitos gatos brancos de olhos azuis, ela não ouvia.
Nem por isso nossa comunicação era menos intensa. Pelo contrário. Expressava-se como ninguém. Desenvolvemos uma linguagem de olhares infalível. Usava-se de truques quando não podia nos ver. Jogava no chão as coisas que faziam barulho. De alguma forma percebeu que isso nos atraía. Talvez sentisse a vibração, da mesma forma com que sabia se alguém batia à porta. Também agia assim quando, mesmo estando no mesmo ambiente, não lhe dávamos atenção.
Em 2001 meu irmão, que estava fora da cidade, voltou para casa e trouxe o gato que adotara filhote anos antes, perdido no estacionamento de um supermercado. A Maria não teve outro jeito a não ser “engolir” o Dumdum.
Já adulto, morria de medo de tudo e todos, dela também. Apesar do seu tamanho, apanhava dela o tempo todo. Nunca se acostumaram realmente um com o outro.
Gatos são inteligentes. A Maria era mais. Poderia falar só dela, das coisas incríveis que aprontava e também dos momentos difíceis por horas, por um livro todo. Afinal, foram 14 anos de paixão.
No mesmo ano de 2001 encontrei a Milli, que bateu à minha porta, amor à primeira vista.
Desde o primeiro dia respondia pelo seu nome.
Não poderia ficar comigo. Não ainda.
Levei-a para morar com uma pessoa muito especial e a visitava sempre, nunca deixou de ser minha.
Em 2003, esse amigo passou a viajar demais e ela ficava muito tempo sozinha, sem atenção.
Queria dar a gata. Não pude permitir que fosse para outro lugar que não para perto de mim e acabei ficando com ela, apesar da Maria.
Maria partiu poucos meses depois.
Por várias vezes me perguntei se eu não havia apressado a sua partida, trazendo a Milli para casa. Mas não.
Acredito que a Milli veio para cá na hora certa, quando eu mais precisaria dela.
De temperamento reservado, mostrou-se amiga e protetora.
Pela primeira vez subiu no meu travesseiro e lambeu minhas lágrimas.
Chorei ainda mais, tanto que me tocou esse momento.
Semanas depois da Maria, meu amigo que cuidou da Milli por dois anos, também nos deixou. Deixou também um elo muito mais forte entre essa siamesinha orgulhosa e eu.
Linda, delicada, frágil, sensível, carinhosa.
Já me disseram que ela teve muita sorte em me encontrar.
A verdade é que ela é um anjinho na minha vida.
Quando perdi a Maria, decidi que adotaria mais uma gatinha. Entre outras coisas, para que fizesse companhia para a Milli (foi uma roubada, mas essa é outra história).
Em dezembro de 2003 elas nasceram, filhas de uma gata de rua que eu cuidava (essa também é outra história).
Eram 3 meninas. Uma tricolor e duas escaminhas. Sempre quis uma tricolor.
Como isso nunca conta, assim que abriram os olhinhos, a Emília me conquistou. Era ela a minha gatinha.
Emília porque é molinha, colorida e tagarela - como uma certa boneca de pano que engoliu a pílula falante do Dr. Caramujo.
Sophia foi doada aos 2 meses, em um sábado à tarde.
Uma mulher ligou, louca por uma gatinha, mas veio buscá-la e a escolheu a filha com o avô.
Domingo, quase 23h, tocou a campainha.
A mãe com as duas crianças, que choravam, vieram devolver a gatinha.
Disse que não acostumou – coisa impossível de acontecer em um dia. Sinceramente, penso que achou feia, muita gente não gosta de "bruxinhas".
Ela veio para o meu colo ronronando alto.
Naquele momento, apesar de não ter a menor intenção de adotar mais um gato, senti que era minha.
Voltei a anunciá-la para doação. Era decidido que ficaria, mas precisava que a família acreditasse que ficou porque não conseguiu quem a adotasse.
Para os que ligaram, inventava uma desculpa, dizia que já tinha sido doada.
Claro que tive pena de separá-la da Emília, sempre foram unidas, mas era por mim também.
Quando vieram para casa, Sophia e Emília não estranharam nada, por estarem juntas.
Quem as vê não tem dúvidas de que são as gatinhas mais felizes do mundo, apesar da rejeição da Milli e do Dumdum.
Com o tempo, fiquei impressionada com o tanto que a Sophia se parece com a Maria em alguns comportamentos, nas brincadeiras, no jeito de gostar de altura, olhar, falar, nos olhos expressivos. A certeza que tenho é que nunca será braba como ela. Maria foi única e especial, mas, de certa forma, Sophia a traz um pouco para perto de mim.
Não se pode imaginar Emilia e Sophia uma sem a outra. Só quem as conhece sabe que assim como são unidas, são diferentes. Têm particularidades que as tornam inconfundíveis. Como todo gato.
Essa história está só começando.
Eles nos dão histórias inteiras e lindas de presente todos os dias. Queria saber contá-las uma a uma.